sábado, 19 de abril de 2014

O sonho da Margarida



 
A margarida sempre foi bonita, o problema é do seu lado habitavam as rosas, e quem é que compete com a flor dos amantes?
 Oh pobre Margarida! Pense, que ela um dia se apaixonou pela jardineira, se achou no direito de acreditar que seria colhida por ela, que a cuidadora das flores a levaria para a casa, e que lá permaneceriam as duas. Porém não sabia a Margarida que a jardineira também era apaixonada, mas pelo jardim inteiro. A florzinha oferecia todas as suas pétalas, toda sua brancura e a alegria do seu amarelo. E não é que a moça do jardim aceitava? Aceitava sim,  ia lá quase que todos os dias para ver a Margarida, pegava a pequena e lhe tirava pétala por pétala, a brincar de mal e bem me quer. Não importava se a desfolhava, o que servia mesmo era que a jardineira estava ali, perto da Margarida, e esta última sofria por lhe roubarem o que em si havia de mais bonito, porém continuava se doando sem pensar duas vezes, enquanto a jardineira se engraçava com as rosas, tão mais formosas, tão maiores, tão mais senhoras.
 A florzinha chorava, prometia para si mesma que na outra manhã tudo seria diferente, e não daria suas folhas, que não iria sorrir, que nem sequer iria pensar na jardineira. E como conseguir tais se era a jardineira que lhe trazia a água para beber enquanto a chuva não vinha? Se era ela que preparava a terra?
Assim lado a lado prosseguiam as rosas e a Margarida, as primeiras eram sempre admiradas, eram sempre colhidas, eram sempre entregues como presentes das namoradas para as namoradas, dos namorados para os namorados, e dos namorados para as namoradas. E a Margarida inerte, presa naquele jardim, presa por vontade própria, tudo por causa do amor que continuava a alimentar pela que lhe cultivava.
O sonho da Margarida era apenas um, ser colhida, ser levada para a casa. E um dia para a sua felicidade isso aconteceu. A jardineira chegou pela manhã, apanhou a Margarida com cuidado e a levou para sua casa, a flor contente, foi rindo feito boba, ficou espantada com o ambiente fechado que encontrou e logo percebeu o que lhe esperava, no meio da mesa da sala havia um vaso com água onde foi depositada. As primeiras horas foi uma alegria só, mas depois começou o tormento, sentiu-se murchar, umas petalazinhas caiam de quando em quando, e a jardineira não mais olhava para ela, não mais brincava de mal e bem me quer.
E foi assim que a pobre Margarida foi morta pelo seu sonho, por realizá-lo. O jardim nunca mais ouviu falar da florzinha. Depois dela outras tantas vieram.

Será que vale a pena ser colhida? Ou melhor mesmo continuar como instrumento do jogo de quereres?
 


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