sábado, 19 de abril de 2014

A moça devoradora de Textos



Confesso que muito lutei para não falar dessa moça, mas já não aguento mais, preciso lhes contar essa história. Então aqui está:
Era quase noite quando ela bateu em minha porta, tinha no rosto uma expressão de medo, e ansiedade. Olhei para ela sem entender o que aquela jovem desconhecida fazia em minha casa. Depois de alguns segundos me olhando ela respirou fundo e me disse com a voz trêmula:
- Você tem um texto? Imaginei que ia me pedir comida, água, dinheiro, mas nunca um Texto.
Olhei-a com estranheza, e ela repetiu a pergunta:
- Você tem um texto para me dar? Lhe pedi um minuto, entrei novamente na sala e comecei a pensar que texto daria para aquela moça. Pensei em meus inúmeros livros, até que decidi! Peguei a folha que estava sobre a mesa, um manuscrito, e entreguei a moça. Ela agradeceu e foi embora. Confusa voltei para o interior de minha casa, pensando naquela moça. Um texto! Para que ela queria um texto?
No outro dia na mesma hora ouvi novamente baterem em minha porta, ao abrir me deparei mais uma vez com aquela moça:
- Aqui está seu texto. Você tem outro?
- Tenho sim!
E assim correram os dias ela vinha, não sei de onde nem por que, me pedia algo pra ler, e me devolvia no dia seguinte. Era uma devoradora, queria novos textos todos os dias. Talvez pensasse que eles nasciam as fornadas como pão francês, será que não percebia que era muito mais difícil que isso? Acostumei com a moça, até que um dia ela não veio, esperei, e nada dela aparecer. Justamente naquela tarde havia escrito algo para ela, um texto sobre a devoradora de textos. Achei uma afronta, como podia se negar a vir até mim quando havia me preparado para recebe-la. Enfurecida rasguei e ateei fogo naquele manuscrito. Um tempo depois ouvi soar a campainha, e ao abrir a porta vi um pequeno envelope no chão, ele guardava uma pequenina carta:

"Uns se preocupam com a fome que sente o corpo, e outros correm atrás do alimento da alma! A minha é alimentada por poesia, e por música, por histórias fantásticas... Cada alma é alimentada de acordo com sua necessidade, umas tem fomes Homéricas, outras São mais contidas.
 Obrigada, por ter saciado a fome de minha alma por esses tempos... Mas essa mesma alma é inquieta, e agora está buscando por um pouco música."
 
Minha fúria foi substituída por uma dúvida: - A alma da moça se alimentava de textos, e a minha, o que andava comendo? Vi então que todos os dias tomava conta das necessidades do corpo, e na maioria das horas minha alma rugia de fome, e eu a fazia calar. Diante de tal horror corri para a estante, peguei um livro de Cecília e fui dar conta de preencher o vazio do espírito.

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